Recomendação para o excelente cartaz do Festival Marés Vivas, a ter lugar no próximo fim-de-semana, na cidade em que nasci e vivi durante 18 anos (Vila Nova de Gaia). O Pedro, meu co-blogger do Sofa Station, vai todas as noites. Eu, só poderei estar presente na primeira, uma espécie de noite para "cotas"...
Uma oportunidade para rever Peter Murphy, de quem não esqueço o fabuloso concerto que deu no Festival do Sudoeste em 2003 e que coincidiu com a apresentação do álbum Dust. Naquele tempo, o vocalista dos Bauhaus optava por uma sonoridade com fortes influências do Médio Oriente e, em particular, da Turquia. Agora, independentemente das influências musicais, vale a pena ouvi-lo pela sua voz carismática. Cuts You Up, um clássico:
É sempre um prazer ser surpreendido. Ontem à noite, no Theatro Circo, Coco Rosie fizeram exactamente isso. Um piano, uma guitarra acústica, uma harpa, uma voz operática, uma beatbox humana e uma tonelada de instrumentos não convencionais conduziram a um concerto excepcional.
Aqui fica uma amostra de um dos favoritos da noite. By Your Side, um tema sobre a ténue linha que separa o amor obsessivo da violência doméstica. A primeira versão é idêntica à tocada ontem no Theatro Circo, ao passo que a segunda é acústica.
Ir ao cinema não tem que ser uma experiência sofisticada e altamente intelectual. Por vezes, gosto de me deixar levar por um filme despretencioso e sem outro objectivo que não seja o puro entertenimento. Foi com esta ideia em mente que me desloquei à "catedral" cinematográfica de Vila Nova de Gaia para ver My Blueberry Nights,com a tradução livre para português "O Sabor do Amor".
Mas os filmes pregam-nos partidas. My Blueberry Nights, um filme de Wong Kar Wai, com Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman, e Rachel Weisz, é surpreendente sob diversos aspectos. Em primeiro lugar, pela forma como foi realizado, demonstra uma invulgar componente teatral, uma vez que é marcado pelos grandes planos dos actores e por longas sequências sem acção. Em certo sentido, é aquilo que muitos designam por um filme "muito parado", com o realizador a não hesitar em ficar concentrado durante cinco minutos no diálogo entre duas personagens, desfocando tudo o que os rodeia.
Um segundo ponto a realçar é a substância dos diálogos e o realismo das personagens. Pode dizer-se que não há nada de irreal no filme. Tal como as personagens, todos nós somos frequentemente afectados pela ausência, ou dificuldade de diálogo e comunicação com os outros, sobretudo com aqueles que nos são mais queridos. Um dos méritos do filme reside precisamente no facto de nos identificarmos com as personagens nele representadas.
Por último, é de realçar a surpreendente interpretação de Norah Jones. Raramente os músicos dão bons actores, mas neste caso a experiência é, a meu ver, francamente positiva. O melhor elogio que se pode fazer à interpretação da cantautora é que é desprovida de tiques pretenciosos que caracterizam muitos profissionais. Poderá argumentar-se, e com razão, que ainda é cedo para uma conclusão definitiva, mas por agora pode dizer-se que Norah Jones evita o embaraço e revela um futuro promissor na Sétima Arte.
No Semanário Expresso, a crítica ao filme divide-se. O pseudo-intelectual Francisco Ferreira atribui-lhe uma bola preta. Jorge Leitão Ramos, com quem concordo frequentemente, dá-lhe três estrelas, sem dúvida bastante mais ajustadas à valia da obra.